quarta-feira, julho 09, 2008


O silêncio de meu corpo

É o grito de minha alma.


A Boca cala

O que os olhos dizem

Em um perfeito acorde,

Dissonância exalando

suavidades da pele, pútrida.


Chagas de um tempo

Pululando poucas pipocas.


sexta-feira, junho 20, 2008

A chama da fogueira

Serpenteando o ar

Lambe o fim

– Que se prenuncia –

Em lânguidas labaredas.

segunda-feira, abril 14, 2008


A pedra dura.

Rocha rachada

no solo, carcomido.


A pedra pura.

Richa antiga

no solo, do sax.


A pedra mole.

Rinha líquida

no solo, chão

debulhado no grão

dourado do sol, inclemente.

Tange uma guitarra,

range um carro, boi

na pipa linha limpa.


A pedra poluída.

Argamassa de detritos

soldados na sova,

na sopa dos desvalidos,

na sola dos vencedores.


A pedra política.

A dura titica

no solo, adubo

ancestral dos invasores,

sacramentos de excrementos

no dócil asno de botas.

Desde muito, remota fertilidade,

selo na testa das bestas,

soberba na lapela bela

do meu gostoso francês.


A pedra inculta.

A terna espera

do solo, de cello.

Fura a fina fila,

oculta pelo pó da festa,

a fácil faina da ira,

a gota suada na pira,

a espada moura na praia,

a ligeira lambada no lombo.

Tudo é delírio!

Lírio da pedra

na selva escura.

terça-feira, março 18, 2008

SUÍTE DO DESESPERO

I – PRELÚDIO

Bem, pretendo contar um pedaço da história de um cabra que conheci em um butiquim pé-sujo que costumava freqüentar. Nome incerto e com uma malemolência tupiniquim bastante temperada com a cultura universal. Deixemos logo de cara registrado que o referido era de uma erudição invejável. De Bach a Elomar, o sujeito não só conhecia tudo, como cantava com uma afinação de dar inveja a Fischer-Diskau, além disso, tocava um belo violão. Aqui se faz necessário abrir um pequeno comentário:

- Este violão foi a única coisa, fora a minha vil presença, que sobrou de minha inimiga. Ele deverá ser guardado como troféu de minha vitória.

Em princípio achei apenas uma peça de retórica barata e não dei muita atenção. Mas após nossa convivência íntima, mais de cinco anos, acabei por achar que entendi. Terminei por descobrir que o violão era de luthier e custava uma pequena fortuna. Não era o valor que importava. Para ele ali se escondia vinte anos de sua vida, a eterna inimiga. Segundo ele, foi o momento em que se deu a única trégua em sua luta com a inimiga.

Do que sua memória registrou, – primeira contradição: sabia de cor uma infinidade de músicas, textos, mapas, poemas, até artigos inteiros ele já me citou, enfim, uma memória prodigiosa – ficou uma janela aberta mostrado todo interior da casa.

- Sabe, qual é mesmo sua graça?

- Odaízio.

- Ah, sim! Odaízio na sala está todo meu resumo, a parte essencial de minha existência. E ela foi pintada com o pincel do fracasso desde o início. Bate nítido o dia, qual foi mesmo? Tinha sete anos? Seis? Cinco... em que se manifestou minha sina de sempre quebrar a obra, destruir o que construí, desfolhar a rosa cultivada com afinco e denodo durante tempos. Depois: o pavor. A sensação eterna de ter o malogro como companheiro. Graças ao meu temperamento irracional sempre consigo acabar com a mais dura armadura, aniquilo de um golpe toda sorte de salvação. Deliberadamente corro rumo ao fim, como se buscasse o bálsamo redentor de minha miséria: a morte. Pois não é exatamente a vida minha maior inimiga?

Conforme o grau de alcoolismo, este ponto de vista sofria algumas alterações interessantes. Uma delas, talvez a mais significativa, era o fato de ele sempre fazer uma confusão, buscando uma polissemia qualquer, entre vida, Aída e ávida. Convém esclarecer que a ex-mulher dele chamava Aída, sim, com acento no i. Deste triângulo vocabular, surgia uma curiosa dialética anárquica, digamos assim, pois a cada segundo as premissas, assim como a síntese, quando havia, tomavam contornos cada vez mais imprecisos e doloridos. Agora, isso não é nada diante dos longos discursos produzidos – essa arenga, deixemos claro mais uma vez, era de uma lucidez e erudição que dificilmente se acha por aí, mesmo nos melhores salões – por sua mente corroída em um coquetel de álcool, todo tipo de tabaco, noites insones, livros, música, solidão e loucura.

Do que consegui apurar, posso assegurar que o dito tinha uma boa posição social e um grande reconhecimento do mundo intelectual antes que eu o conhecesse. O que me espantou, pois, embora eu não fosse um genérico e sim um especialista, nunca ouvira falar nele. O que só compreendi depois que O conheci. Conseguiu, mesmo com todos os delírios, manter um padrão mínimo de vida após o que ele qualificou como golpe mortal em sua inimiga. Tal golpe, sempre segundo o Referido, lhe custou muito mais que sua dignidade. Comentários obscuros, como era de seu feitio. Contudo, o que se mostrava em trevas era cristalino. Só fui entender isto muito tempo depois. O preço de sua vitória foi sua própria ruína. Para se manter vivo era preciso morrer. Qual não foi meu susto ao descobrir oito livros publicados, vários artigos em publicações de todo mundo, composições, enfim, uma vasta produção intelectual, todas voltadas para a arte. Acabei, por uma dessas felizes coincidências da história, descobrindo que o dito Dito era um exímio fotografo amador. Mais tarde fui saber que se tratava de sua linguagem predileta.

Segundo seu filho, o que eu consegui, por enquanto, catalogar é uma parte ínfima de sua produção. O primogênito, aliás, igualzinho em tudo ao pai, me disse que tudo que ele produziu após a separação foi praticamente perdido. Acrescentou que foi a fase mais produtiva do velho. Escrevia e compunha alucinadamente. Sóbrio, bêbado, deprimido, feliz, não importava seu estado de ânimo, tudo era motivo para fazer um poema, uma música, um artigo, um ensaio, uma fotografia...

Por enquanto fiquemos com estes pormenores do Dito, chamemos assim. Sobre a minha pessoa, basta dizer que sou um velho professor universitário, viúvo, aposentado, sem filhos e com um belo tempo para a vadiagem, a especulação sem sentido e tudo mais que o ócio possa proporcionar.

A – Primeira seção: o buteco.

Era um pé-sujo sui generis. Comecemos pela diretoria, pois todo bar que se preze tem a sua diretoria, os clientes fixos e contumazes que trocam de música, invadem o congelador e choram suas mágoas para o proprietário. Havia de tudo: médico, jornalista, não pode faltar nosso homem da imprensa, auditor do fisco federal, auditor do estado, músico fracassado, funcionário público, diplomata, tradutor, cineasta, publicitário picareta, biólogo renomado, que foi o primeiro a me dar algumas informações sobre nosso herói, professor aposentado de literatura brasileira, no caso, este que vos escreve, advogado de cela de cadeia, até um major do exército fazia parte da diretoria, militante comunista radical, militante reacionário e, como não poderia deixar de ser, o bebum pentelho, ícone do bairro. Creio que esses são os mais representativos. Os outros, vamos nos referindo à eles ao longo da narrativa. Era um grupo de umas vinte a trinta pessoas que tornavam a vida do bar lucrativa para seus donos, um casal já em idade avançada.

Pois bem, foi neste ambiente que travei contato com o Dito pela primeira vez. Acabara de me mudar para esta casa e estava vasculhando a área para me inteirar onde poderia tomar meu whisky diário. Deparei-me com este casal e sentei para beber e ler. Ocupar minha folgança era meu encargo. Não demorou muito para que o Dito chegasse, sem cerimônia, cumprimentou um por um dos presentes e pegou uma cerveja no frigorífico. Sentou sozinho, suposição confirmada mais tarde, na mesa reservada aos diretores. Pegou um cigarro, procurou o isqueiro e não achou. Dirigiu-se a minha pessoa, que nesta altura só prestava atenção no recém chegado, e pediu no seu jeito misturando empolação com a mais chula expressão:

- Aí meu chegado, vossa excelência poderia, por obséquio, ceder-me por alguns instantes seu objeto faiscante, vulgo isqueiro?

Como eu não fumava não me foi possível atender ao pedido, mas o cara me intrigou. Fiquei prestando atenção e vendo todo seu gestual elegante. Parecia um Lord inglês. Era só mesura e delicadeza com as pessoas que foram chegando. Parecia ser muito querido de todos, o que se confirmou rapidamente. De início uma conversa trivial com seu Carlinhos, o butequeiro. Não tardou muito chegou o médico. Camarada grande, gordo e com uma barriga de doze meses. Grávido de um bode. Bonachão e despreocupado começa uma conversa com o Dito. Inicialmente contou uma piada, Dito outra. Os dois conheciam as duas.

- É doutor Francinaldo, tá difícil piada nova.

- Esse menino, isso não é nada, mais difícil tá a cachaça. Ô carestia danada. Acho que vou virar evangélico e dar o dízimo, sai mais barato.

- Façamos o seguinte: montamos nossa igreja e continuamos a beber.

- Taí! Idéia genial. Sou o tesoureiro.

- A gente pode vender terrenos no céu. Latifúndio com bela vista para Vênus, terreno vizinho de Deus, e, suprema glória, seu pedaço do paraíso garantido por toda eternidade. Quando chegar se o cara não gostar, devolvemos o dinheiro com juro e correção monetária.

- Faz o que você quiser, mas o tesoureiro sou eu.

- E o pastor?

- É... precisamos de um pastor.

- O Balthazar, tem nome de crente, cara de padre e ainda é politicamente correto, perfeito. A simbiose absoluta e pura.

- Taí! Idéia genial. Mas, eu sou o tesoureiro.

- Eu organizo a suruba.

Nisto o dono do estabelecimento chega junto de mim, percebendo minha falta de educação, e diz cochichando:

- Quando junta esses dois aí é uma bestagem sem fim.

Meu risinho de lado denunciava minha indiscrição. O que foi prontamente notado pelo Dito.

- O senhor não estaria interessado em participar de nosso empreendimento?

Minha vergonha foi escancarada e fiquei todo sem jeito, não sabendo o que responder. Dito, com sua perspicácia toda excessiva, não me perdoou:

- Ora, mais um que foge de sua sina. Renda-se aos desígnios de sua existência que os céus o perdoarão.

Não entendi absolutamente nada e fiquei mais aparvalhado. Ainda desconhecia a fina ironia misturada com a mais pura bobagem de nossa personagem. Este acontecimento foi a minha porta de entrada naquela balbúrdia insana, sedutora... Após esse constrangimento, evidentemente apenas para mim, seguiu-se uma conversa na qual eu prestava atenção e participava muito timidamente. Limitando-me a responder as perguntas que me eram feitas.

- O senhor é novo aqui na área? Nunca te vi! – perguntou-me o Dito, mais pelo não dito, pois era notório que ele conhecia muito bem tudo por aqui.

- Sim! Mudei-me há coisa de três semanas. Comprei o velho casarão.

- Desde criança ouço falar que aquele casarão é a morada da tristeza.

- Crendices – Disse o Dr. Francinaldo em um misto de desprezo e cientificismo.

- Ora, Dr. Francinaldo, causa-me espécie que vossa excelência não se fie nas longas lendas de nosso imaginário, de nossa louca fantasia. Não caia nas mãos da racionalidade. Então me explique: presenciei a passagem de várias famílias naquela casa, e todas com a tragédia colada em seus rostos. O mais antigo que consigo lembrar foi o velho Ludovico. Homem bom, atencioso, camarada e, sobretudo, muito deprimido. Também, depois de tudo que o velho Ludovico passou. Depois dele vieram os Cavalcantes, família dizimada pelo filho mais novo que se suicidou logo após, tudo lá, no belo e velho casarão. Fora todos os casos anteriores que minha vó – ou seria minha tia? Não! Acho que foi minha madrinha – me contava.

Confesso que a narrativa me assustou de início. Mas a sublinhar, só mais tarde percebi os sinais de demência se mostrando em sua louca memória. A confusão de nomes, parentescos, casas, família, enfim, toda aquela parte dos quartos estava inapelavelmente às escuras, parte íntima que se tornou impenetrável. Outra coisa que me chamou atenção foi o fato de Dito associar belo e velho à tragédia: “no belo e velho casarão”. Tudo isso multiplicou minha curiosidade pelo casarão. Explico. Comprei o casarão ao acaso. Em minhas caminhadas a esmo pela cidade, deparei-me com esta edificação de início do século XVIII e me encantei. Procurei obstinadamente o proprietário para a aquisição do imóvel. Algo me arrastava para ali. Ao fim de oito penosos meses encontrei o dono e fiz minha proposta. Prontamente aceita. Encontrava-se em um razoável estado de conservação, o que permitiu uma reforma rápida. Troquei encanamento, fiação, uma reforma no piso de tábua corrida, que supus não ser original, e mexi o mínimo possível. Não era minha intenção desfigurar a casa, ao contrário, pretendia mantê-la o mais próximo possível de sua origem. De início não atinei para o tamanho da casa. Só após mudar percebi a imensidão vazia que me rodeava. O casarão, como dissera o Dito, tinha realmente um ar lúgubre. E isso me fascinou ainda mais. Foi quando percebi que dali não sairia nunca mais.

Minha ligação com a poética do espaço sempre foi muito forte. A casa, para mim, se tornava uma extensão do ser, símbolo vivo de um imaginário poético. Ainda mais com uma história tão, vá lá, unívoca. Não sei por que esta casa me lembrava Thomas de Quincey envolto em sua casa aromatizada pelo ópio. A solidão do sonho e do pensamento.

(CONTINUA...SABE DEUS QUANDO)

segunda-feira, março 17, 2008

Foto: Wellington Diniz - Grande Hotel - Araxá (MG), 1993.


O vento assopra uma lembrança
perdida no meio de velhos mofos
e insiste em trazer luz.

O vento, coitado, não lembra
que o melhor ângulo é uma
visão torta, deformando os arcos.

sexta-feira, março 07, 2008

Foto: Wellington Diniz - Cavalcante (Go), 2000.


Chove chuveirinho no cerrado.
Gotas da terra para o céu
invertem a equação da criação.


terça-feira, fevereiro 19, 2008


Para Zélia, minha ex, porém eterna, gatinha.


Queria dar-te pérolas negras da malásia,
mas meu bolso vazio e mal amado
desconhece as sutilezas do amor.

Queria encher-te de aves-do-paraíso,
mas estas esmeraldas sem brilho
ignoram o manto que veste o amor.

Queria cobrir-te com ouro da água,
ouropéis fascinando os tontos que
não sabem o quanto brilha o amor.

Queria colocar o nilo aos seus pés,
mas as jóias orientais, certamente,
se sentiriam menores diante do amor.

Queria Diamantina para que fosse sua,
mas presentear-te com pedras e ruas
é ocultar a praça por onde passeia o amor.

Então vai os versos de um poeta menor,
envergonhado com sua pena pequena,
triste diante do que existe de imenso

neste oceano de sensibilidade, nesta vasta
lagoa onde o amor nada de braçadas.
Beijos molhados, descarados, amados;

eis o que ofereço nesta canção vulgar.
Notas baratas na nata violeta do lugar,
notas paradas no nada violento do lunar.

quarta-feira, fevereiro 13, 2008


A pena cala.

Laça o acaso,

Desata a casaca

E segue,

Indolente,

Na romaria do dia.

O verso fala.

Falácia muda,

Proclama a casa

E pára,

No movimento,

A canção da rua.

sexta-feira, novembro 02, 2007

Sinto o fim se aproximar!


Tanto há a ser feito

E nada incomoda

esta sensação de finitude.

Apenas o desejo de ser,

De ter a pena leve

Como quem anseia

O seio da lua.

Lascívia nua

Perdida na rua.


Em mim,

Apenas a solidão.

sexta-feira, setembro 21, 2007


Amei muito!

Mais do que podia minha alma.

Amei e não notei que a lânguida lambida era feita de sal.

Dissolvia em mim um cálido torrão de açúcar.


Amei muito e isto não foi suficiente.


O que dar além de minha tosca versão do carinho?


Amei muito

E muito foi pouco.


Descobri que

afinal

não estamos diante do todo poderoso.

Apenas lamento o pouco que fui de mim.

Balançando entre a docilidade e o desprezo

arranhei a mim mesmo.

Risquei aquilo que eu poderia ter sido.


Envolvido pela mediocridade

descobri que não passo de um mero botão

abotoando a casa inabitável.

segunda-feira, setembro 10, 2007

A VERDADE DAS COISAS

Neste meu silêncio azul,

Onde o que constrói

É um rio que passa, as

Flores e as vontades também,

Dos homens de boa vontade,

Há a voz do que não reina,

Testemunha antiga de muitos

Mitos contraditórios e falsos

Testamentos.

E nem lhe importa o reino.

Se flores há, se corre o rio

Ou a vontade é do homem,

Porque quererá ele reinar então,

Não é o que há e corre,

O que, já correndo, constrói,

Ou do Homem, sua vontade,

Se a vontade é uma flor,

No rio que há, porque passa,

Passou e há-de passar,

Como coisa que está

E é e será e voltará a ser,

Porque a si própria se constrói,

De sua vontade,

Já no homem verdade?

Neste meu silêncio,

Onde o azul é todo este azul

Que há e o que não se vê,

Toda a voz é a voz primeira,

Do que, embora sem reino,

Sempre reinará.

Jorge Humberto

(18/04/2004)

Poema de meu caro bardo lusitano Jorge Humberto que gentilmente nos enviou para publicação.

quinta-feira, setembro 06, 2007

sábado, agosto 25, 2007


Lanço olhares tristonhos

Em cada caco de memória!

Guardo a insuportável lembrança

Da felicidade, do sonho.

Explode em mim

A angústia do tempo perdido.

O longo parto da noite.


Lanço olhares doloridos

No que sobrou desse amor,

Desta miragem embaçada

Revelando a rima óbvia:

Dor.


Grito lancinante ecoando

No dia silencioso da partida.


Laço traços de aços na

Dura cortina fechando o ato,

O falso fato, de fato, nato.


Ao léu, no céu negro, a luz.

quinta-feira, agosto 23, 2007

O Princípio da Singularização


A percepção singularizada é a condição necessária para que retiremos de nossos olhos a automatização.

Bebo a angústia que há em mim!

Não aquela eterna do butiquim.

Apenas o João no balcão.

Bebo a angústia que há nos outros!

Não aquela querela do João.

Apenas o pião no salão.

Degusto delicadamente

Cada gole de minha derrocada,

A eterna lágrima do palhaço.

Faço o laço como desfaço

E disfarço a lágrima.

Não a do palhaço,

A do João no balcão.

Os Sapos

"OS SAPOS"
José Carlos Oliveira
In
A Revolução das Boneca


Chove desde ontem ao entardecer. À noite, tempestade assustadora, os trovões faziam trepidar a janela do meu quarto. Solidão agradável aqui, longe do mundo. O rio está encachoeirado e barrento. Na varanda, os sapos estão parados, angélicos. Um deles entrou na cozinha e tentei em vão expulsá-lo. O máximo que consegui foi que se transferisse para o corredor entre a cozinha e o banheiro. Lá está ele ainda. Deixei aberta a porta que dá para a varanda, na esperança de que decida ir embora. Mas os outros podem querer entrar também...
Todos esses dias sem pensar em mim, só pensando nos outros. Agora à noite, quis ir à cidade. Andei pela estrada escura, esperei um ônibus que não chegava, voltei para casa. Como o neurastênico enluarado sinto sede de aniquilamento: álcool, música, mulheres. Mas aqui estou; incomunicabilidade total.
(Agora fui ver o que há com o sapo que está dentro de casa. Ele aproveitou a luz apagada e andou um bocado na direção da varanda. Quando acendi a luz ficou imóvel; não pode imaginar que eu ficaria contente se pudesse vê-lo prosseguindo, aos pulos, na direção da liberdade.)
Parece que tudo acabou: o amor, o sofrimento, as brigas, o futuro. É assim que interpreto o silêncio dela, e no entanto sinto apenas desânimo. Sei que vou morrer cedo - bem mais cedo do que mereço, gastei até hoje a minha vida procurando a mulher capaz de mitigar a minha solidão, capaz de construir comigo uma solidão a dois, longe dos enganosos aniquilamentos, longe das noites e de seus prazeres, que a aurora desmancha; agora não tenho mais tempo, é preciso viver em solidão solitária, sem o calor da fêmea - essa freira de que preciso mais do que Jesus Cristo... Admito que as coisas acabem como começaram, isto é, por distração de nossa parte, por preguiça... Sinto que só a morte me ama com devoção.
(Olhei outra vez, e o sapinho já está na soleira. Mais uns minutos de escuridão e voltará à varanda, onde prefiro que fique. Desculpe, sapinho, mas na minha solidão não há lugar para você.)
O rádio está ligado, ouço música popular. Quisera ter algum objetivo. Mas tenho apenas inveja dos que se realizam, dos que sabem o que querem, dos que selecionam os amigos; tenho inveja de qualquer homem que tenha uma mulher e de qualquer mulher que tenha um homem. Penso com nostalgia nessas alianças e nessas opções que dão sentido à vida e para as quais não me sinto aparelhado. O ser diferente que sou - contra a minha própria vontade - não me deixa comungar convosco nas vossas alegrias, na claridade. Estou sempre na sombra.
Conheço o desespero do homem invisível. Mas a culpa é minha. Já que não ouso exteriorizar completamente o meu verdadeiro ser - difícil, silencioso, enraivecido - mostro uma espécie de estilhaço a que chamo de eu provisório. Quando me deito e no escuro faço o inventário do dia que passou, é quando me compenetro de que não sou de modo algum a pessoa que fui ao longo do dia. Mas para os outros já é tarde. Para os outros, sou sem apelo aquilo que me mostrei: fácil, indeciso, confuso, sem opinião - uma espécie de afetividade cega. Continuo no limiar de minha personalidade; aos trinta anos, ainda não nasci.
(Pronto: o sapinho já está na varanda e já fechei a porta. Ele desistiu de ficar amigo de uma pessoa que tão acintosamente o rejeita. Os sapos são sensíveis e bem-educados.)
Nesta noite, neste vale, cercado pelos eucaliptos, ouvindo o murmúrio do rio barrento e os gritos dos insetos, solitário nesta casa cheia de portas e janelas, mais perto da morte do que da vida, tenho medo.

quarta-feira, agosto 22, 2007


Forjei-me na dureza estéril da dor. Perdi o sonho redentor de minha miséria. E eis-me: perdido na reta solitária esculpindo a cena trágica.
Suscetível chuva
encobre meus olhos,
mascara a imagem limpa
de Minha infinita solidão.